(Trans)cendendo as barreiras do ringue

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Em meio a tantas decepções, vez ou outra, os deuses do pro-wrestling resolvem fazer uma boa ação para com os fãs, nos agraciando com pequenos momentos históricos. Situações tão marcantes e emblemáticas, que nos motivam a continuar assistindo e que nos fazem pensar de que, talvez, sofrer sendo fã desse tipo de entretenimento valha realmente a pena (no fundo a verdade é que somos todos masoquistas).

Uma dessas ocasiões especiais aconteceu na última quarta-feira (12), durante o Dynamite, o programa semanal da All Elite Wrestling. A até então campeã detentora do AEW Women’s World Championship, Riho, tinha a difícil missão de defender seu reinado contra ameaçadora oponente, Nyla Rose. Ainda que complicado, tal façanha parecia não ser impossível para aquela japonezinha magricela voadora, uma vez que a mesma já havia derrotado Nyla anteriormente no primeiro episódio televisionado do Dynamite, levando dessa forma o cinturão.

Porém, nessa segunda luta entre as duas, as coisas foram um pouco diferentes. No que parecia um remake bíblico da Record sobre David contra Golias, a disputa foi muito acirrada. E numa que foi uma das melhores lutas da divisão feminina da AEW, e talvez uma das melhores lutas entre os shows semanais, Nyla Rose venceu, se consagrando a primeira mulher transgênero a ganhar um cinturão em uma grande empresa de wrestling.

Desde a sua concepção, a AEW constantemente se denominou como a empresa que, viria a revolucionar o mercado já defasado do wrestling profissional. Com a sua estreia de seu programa televisionado, o que víamos era um programa de qualidade, mas que de nada lembrava a federação utópica e transgressora que Cody havia prometido durante entrevistas e coletivas de imprensa anteriores.

Entre promessas não cumpridas e reclamações de fãs que se sentiram enganados tal qual nas últimas eleições presidenciais, a vitória de Nyla Rose finalmente surge como o primeiro passo dessa, que ainda parece ser, uma revolução um tanto quanto tímida. 

A conquista de Nyla significou a conquista de uma minoria dos fãs de wrestling, que a muito tempo vem sendo marginalizada. Significou a tão aguardada representação em rede nacional daqueles vêm sendo tratados como invisíveis.

A conquista de Nyla também é a conquista também de outras mulheres trans espalhadas pelo cenário independente, mas que nunca sequer tiveram a oportunidade de mostrar seu devido talento por, simplesmente, fugirem dos padrões determinados pela maioria.

A conquista de Nyla vem pra mostrar que wrestling nunca é só wrestling.

Outras lutadoras trans (da esquerda pra direita): Candy Lee, da Nova Zelândia; Harley Ryder, do Reino Unido; e Asuka, do Japão (não confundir com a lutadora da WWE)

É óbvio que a atitude ambiciosa da trupe de Tony Khan em proclamar uma campeã trans entre seu hall de lutadores não passaria “impune” pelo público.

Fãs de pro-wrestling podem ser muito cruéis (E BURROS!) quando querem. E nem precisam fazer o mínimo de esforço para isso.

Desde de o anúncio da contratação de Nyla Rose para integrar o plantel feminino da empresa, uma chuva de comentários preconceituosos tomaram as redes sociais, ainda que em nenhum momento o fato de Nyla ser transgênero tenha sido usada de forma apelativa pela companhia.Essas atitudes não foram muito diferentes quando a lutadora alcançou o tão almejado campeonato. Mensagens transfóbicas, piadas de mau gosto, e até o vazamento de antigas fotos de Nyla antes do processo de transição de gênero explodiram na internet. Usar as redes sociais nesse momento era quase como o equivalente de andar por Raccoon City infestada de zumbis, só usando roupa de banho, óculos de sol, chinelo, e uma faca de cortar pão pra se proteger. Em algum momento você iria morrer, mas nesse caso de raiva.

Comentários burros de pessoas mais burras ainda

“Nyla Rose é um homem, não pode ser campeã feminina nem disputar com mulheres! Isso é injusto!”

Esse argumento (BURRO) foi um dos que mais li nas redes sociais nos últimos dias. Lembrem-se que estamos falando de luta-livre, uma forma de arte onde aceita-se de tudo, desde palhaços lutando, homens com capacete de stormtrooper, doidos piromaníacos, e até o Robocop. Sinceramente, uma legião de pessoas que celebram o Undertaker (que não passa de um coveiro satânico que luta e sequestra a alma dos oponentes) não tem muito mérito algum pra falar que a vitória de Nyla Rose é irreal.

O fato é que, para uma grande parcela dos fãs, acompanhar wrestling é reafirmar sua masculinidade, e tudo aquilo que foge do aceitável é rechaçado. Para esses, wrestling só pode ser disputado se você for um homem branco, cheio de músculos, e hétero. Minorias? Mulheres? Negros? TRANSGÊNEROS? NADA DE LACRAÇÃO AQUI!

Chega a ser triste tamanho conservadorismo em um nicho que sempre foi visto por si só como piada. É mais triste ainda pensar que essas atitudes vão muito além do wrestling.

Sim sim, eu sei, esse texto era pra celebrar a conquista de Nyla e tudo o que isso representa. Mas veja bem, não seria um texto meu, se em algum momento eu não xingasse e criticasse o fã de wrestling profissional. Quer dizer, esse é o meu hobbie!

Mas vamos finalizar essa pequena publicação em ritmo de festa!

A coroação de Rose, é a chave que pode abrir as portas para um futuro mais progressista no meio pro-wrestling. Isso enche de esperança aqueles mais sonhadores, que acreditam numa melhor representação LGBTQ+ no meio, sem que suas identidades e dinâmicas sexuais sejam demonstradas de forma satíricas.

Que outras Nyla Roses sejam igualmente consagradas mundo afora, e que assim como o lema inicial da AEW diz, que o wrestling seja para todos.

“A AEW sentiu que sou digna de uma chance. Tudo o que posso pedir é que algumas pessoas por aí, os fãs que possam ter uma mente mais fechada, me dêem a chance de mostrar o que eu posso fazer no ringue. Isso é tudo.” – Nyla Rose em entrevista ao Sports Illustrated.

Gabriela Severo

Farmacêutica e escritora frustrada. Desde 2008 sendo fangirl de lutinha.

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