É preciso uma real mudança para além das desculpas a quem “se sentiu ofendido”

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Na manhã de hoje, na edição de número 25 do ‘Powerbomb Cast’, da Powerbomb Brasil, foram relevadas acusações de abusos ocorridos na equipe da Federação Internacional de Luta Livre, do Rio de Janeiro.

As situações relatadas no podcast vêm após um movimento global de pessoas, majoritariamente mulheres, que sofreram algum tipo de abuso, seja ele psicológico ou sexual, dentro do Pro-Wrestling.

Lutadores foram expostos na Inglaterra, Estados Unidos, e agora no Brasil. Quem ainda não está informado sobre os casos e as consequências, o WrestleManiacos produziu dois podcasts sobre o caso, além do publicado pela Powerbomb hoje.

O podcast, além de relatar um episódio específico de abuso por parte de um membro da equipe, também revelou que alguns lutadores – entre eles Domina, uma das mais antigas da companhia – foram expulsos após exigirem a construção de um regimento interno e, de acordo com as palavras de José Thiago Brito, sim, a pessoa que interpreta o lutador Tytan e também é gerente da FILL, acusá-los de não respeitarem a hierarquia.

A intenção desse regimento era simples: criar um ambiente mais responsável para que as pessoas, principalmente as mulheres, pudessem ter a garantia de que medidas seriam tomadas de forma adequada caso houvessem casos como os relatados no podcast.

Novamente, de acordo com José Thiago, o homem que interpreta Tytan, os lutadores “mesmo após a exclusão do lutador pego em flagrante, queriam uma exposição do fato, transformar a causa em uma bandeira e não o faria até compreender tudo o que estivesse acontecendo.” Dessa forma, expulsou os lutadores, assim como os assediadores.

Dessa forma, trago um tweet nosso para responder essa questão:

Expor uma violência sofrida dentro de um ambiente não é torná-lo uma bandeira, é a exposição pública e necessária de uma violência sofrida. Em um país onde mais de 22 milhões de mulheres já relataram sofrer algum tipo de assédio, e que mais da metade delas não denunciam o seu abusador, muitas vezes por MEDO, expor um tipo de abuso é um sacrifício.

Sem suporte e colocadas sob suspeita da veracidade das informações, as pessoas que são abusadas sofrem com o receio. E esse receio transborda até mesmo para quem não sofreu, mas que deixam de fazer alguma atividade pelo medo de sofrer esse mesmo abuso, assim como também foi relatado no podcast da Powerbomb.

E José Thiago, o homem que interpreta Tytan, continua, dizendo que “se você respeita o seu colega como o seu próximo, não o fará ou agirá mal com ele. Desde o início da equipe sempre reforcei isso. Até porque, se você se coloca no lugar do outro, todo o modelo comportamental será seguido.”

O que ele provavelmente não compreende é que o respeito já se foi no momento que o abuso foi feito. Em nenhum momento, o abusador se colocou no lugar de quem foi abusado. Por outro lado, se “a bandeira é levantada”, ou seja, há a tentativa de exposição, as lutadoras e quem estivesse apoiando estaria DESRESPEITANDO?

Mermão, pensa de novo.

Uma pessoa sofre um tipo de violência, pessoas respondem fortemente à omissão da equipe por esse abuso e são expulsas igual aos abusadores? Por desrespeitarem a hierarquia? Nunca, mais nunca se deve igualar a revolta do oprimido com a violência do opressor. E isso foi feito, por uma simples questão de hierarquia.

Voltarei ao tópico da hierarquia, mas gostaria de lembrar que é necessário que nós homens estejamos dispostos a discutir, aprender e entender as situações de abuso, que, repetindo, são majoritariamente sofridas por mulheres. Como falado também no podcast, não podemos nos omitir nunca. Omissão faz com que mais casos aconteçam. Pensa nisso.

Numa sociedade pautada numa relação de superioridade do homem em relação à mulher, devemos ser parte ativa na quebra desse paradigma. Nós ajudamos a construir o patriarcado no momento que fechamos os olhos para os nossos privilégios. Ajudamos a manter essa hierarquia, que existe e também é replicada na Federação Internacional de Luta-Livre.

Estamos em 2020. A concepção de que é necessário uma pessoa forte a frente de um projeto ou movimento é piada. É necessário construirmos juntos, e se essa construção é conjunta, não há desrespeito a hierarquia, porque não existiria esse tipo de estrutura.

Se mesmo assim insiste-se em uma hierarquia, que a pessoa no comando seja qualificada para entender o mundo em que vivemos em 2020. Se você não compreende as violências que mulheres, LGBTQIA+, negros – mesmo sendo negro – você não está preparado pra dar carteirada e pedir respeito de ninguém.

Quem sabe, você deveria voltar para a base e aprender com quem você acredita estar abaixo na sua hierarquia.

Por último, não menos importante. A mensagem é para todos os promotores de Luta-Livre no Brasil que ainda possuem um pensamento retrógrado que coloca a arte no País nos tempos de Ted Boy Marino. O mundo mudou, mudem junto com o mundo. Aprendam, parem de falar besteira. Entendam que o esporte não é mais formado só por homens, héteros e brancos. Não sejam Sem Noção.

Aprendam a entender os anseios de pessoas de outros grupos ou isso aqui vai morrer lembrando do Michel Serdan como a última grande coisa que aconteceu pro Telecatch.

E, mais importante que tudo, um adendo: As vítimas são o mais importante nessa situação. Até o momento que se prove o contrário, elas serão vítimas, e por isso devem ser acolhidas de toda a forma possível. Não larguem as mãos delas. Mostrem que elas podem sim expor as violências sofridas no ambiente em que elas frequentam.

E as desculpas não é para quem se sentiu ofendido. Alguém se sentiu ofendido porque outra pessoa a ofendeu. Logo, você tem que pedir desculpas a quem ofendeu. E aprender. E só. Todos nós. TODOS.

Lucas Gomes

Não sou um profissional.

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