Eu fui um Rosa Mendes Guy

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“Olá, meninos e meninas. Eu sou L.R. Barbosa…”. Pois bem, nada mais justo do que iniciar este artigo do que com a frase que me guiou desde o começo da jornada que estou prestes a relatar. Caso você não tenha me conhecido por essas bandas dessa terra sem lei denominada IWC, provavelmente deve estar tentando entender o que é que tá acontecendo por aqui. Bom, eu resolvi usar deste artigo para compartilhar a minha história, que envolve um jovem dinâmico com a cabeça nas nuvens, uma ex-lutadora da WWE (embora nem todos a considerem como tal), uma companhia nacional de luta livre, e principalmente, sobre como o wrestling pode ter um impacto positivo em um fã. Tentarei não me prolongar muito porque se bobear posso acabar escrevendo um livro ao invés de um artigo, e sei que seu tempo é precioso, caro leitor, portanto, quanto menos eu desperdiçar dele, melhor. Agradeço desde já a equipe do WrestleBR pelo espaço e a você por se dispor a ler cada palavra que eu escrevo aqui com muito carinho. Então, sem mais delongas… só bora, fiote!

O início

Era uma vez (nossa, como eu sou original…), na pacata cidade de Mongaguá – SP, um jovem rapaz chamado Luiz Ricardo Almeida Barbosa, ou melhor dizendo… Eu. Desde 2010 eu vinha a utilizar das redes sociais (primeiramente o Orkut, e então o Facebook e Twitter no futuro) para conversar, debater e zoar sobre luta livre, uma paixão que me contagiou em 2008 com a boa e velha WWE no SBT e venho levando comigo até hoje. Jamais poderia imaginar que o que era apenas um passatempo, com o tempo se tornaria algo que, de algum jeito, mudaria a minha vida.

Tudo começou em 2015. Na época, eu já usava uma boa parte do meu tempo livre para assistir a companhia do Tio Vince no Fox Sports 2 e comentar a respeito da mesma e até de algumas outras nas interwebs afora. Tive sempre um carinho especial pelas (até então) Divas, que apesar de serem tratadas mais como “colírios”, tanto pela própria companhia quanto pelos fãs, tentavam sempre dar o seu melhor para serem notadas e – principalmente – respeitadas tanto quanto os homens numa modalidade tão focada num público majoritariamente masculino. Felizmente, uma hora esse esforço delas não passaria despercebido. Após tanto descaso e humilhação ao passar dos anos, uma tag team match feminina de menos de 1 minuto num RAW foi a gota d’água para os fãs, que protestaram na internet com o movimento #GiveDivasAChance. Protesto este que até gerou bons frutos, apesar de alguns pesares também (coisas que se evidenciariam anos depois).

A voz do povo é a voz de Deus, certo?

Todos nós, entusiastas da divisão feminina da WWE, queríamos o fim de tratamentos hostis com elas, desde a sexualização em excesso até a prioridade em destacar a mesma meia dúzia enquanto as demais são deixadas pra escanteio (tá, essa última não mudou até hoje, e se bobear nunca mudará). No fundo todo mundo queria ver sua lutadora favorita ganhando o destaque merecido. E comigo não foi diferente. Só que a minha lutadora favorita era um tanto, digamos… incomum em relação ao que a maioria costumava gostar.

Como eu me tornei um fã da Rosa Mendes

Já adianto pra você que é algo mais fácil de se sentir do que de se explicar, mas tentarei descrever de forma que seja compreensível. Conheci a Rosa pra valer lá pra 2011/12, entre uma das partes de sua carreira solo e o tempo que ela virou manager de Primo e Epico. Senti de certa forma uma conexão, eu simplesmente via um pouco de mim nela, algo que nunca aconteceu com qualquer outro(a) wrestler. Sua personalidade latina (na época nem mesmo o fã mais otimista imaginava que o Brasil seria representado lá como é hoje), sua naturalidade dentro do papel proposto, o jeito que ela se fazia ser notada… era algo simplesmente mágico. E conhecer a pessoa fora da kayfabe com o passar dos anos só fazia essa conexão ser ainda mais forte. Mas sempre parecia que a WWE a via apenas como uma valet/manager, e nas poucas vezes que a usava como lutadora, ela só estava lá para apanhar e perder. Eu enxergava um potencial enorme nela, e me parecia evidente que a WWE queria ignorá-lo, por mais que ela se esforçasse. E com o movimento #GiveDivasAChance a todo vapor, parecia que a chance de dar voz à minha causa de uma vez enfim havia chegado. Afinal, por Divas, aparentemente se referiam a TODAS ELAS, sem exceções, né? E a WWE, meio que sem querer, me deu uma mãozinha com isso…

Seria eu um fã “durão o bastante”?

2015 realmente foi um ano mucho do loko. Quase que na mesma época do #GiveDivasAChance, a WWE lançaria a mais recente temporada do Tough Enough, reality show com o intuito de lançar anônimos (de preferência sem muita experiência de PW, mas ainda com um certo background físico, indo desde líderes de torcida a fisiculturistas) ao roster da WWE e/ou do NXT. Os candidatos enviavam vídeos para se inscreverem, e tinha de tudo; os que levavam a chance a sério, os que queriam acima de tudo mostrarem suas histórias de superação… e claro, a turma de descompromissados atrás dos seus 15 minutos de fama. E creio que é nessa última que eu me encaixo, mais ou menos.

Momentos antes da magia acontecer

Sim, este menino de (na época) 19 anos, cuja única atividade física praticada regularmente era levantamento de garfo, resolveu meter a cara e enviar seu vídeo ao Tough Enough, baseado em um vídeo que eu havia feito antes para uns amigos num grupo do Face (ambos os vídeos estão no meu canal caso você queira dar uma risada ou apenas sentir aquela vergonha alheia https://www.youtube.com/channel/UCVeaQr8FojqmkEzQT7_jUNg). Nada de exibição de músculos nem demonstração de força; apenas eu com meu inglês embromado brincando de ser manager ao dar voz àquilo em que eu acreditava: GIVE ROSA MENDES A CHANCE. Afinal, ninguém faria isso por mim; isso já era evidente dada a quantia de fãs que tratam a Rosa como uma piada. Óbvio que eu não fui chamado para o reality, afinal nem era essa minha intenção; eu não posso nem sair daqui de Mongaguá sozinho, imagina então ir pros States (talvez depois você entenda o porquê). Mas aquilo simplesmente me fazia feliz, e isso era tudo que importava. E mais adiante, ver que meu “trabalho” também poderia deixar a própria Rosa feliz apenas alegrava ainda mais o meu coração.

As primeiras taquicardias a gente nunca esquece

O Tough Enough me ensinou de certa forma que eu poderia ser feliz com o wrestling sendo quem eu sou, vivendo-o do jeito que parecia melhor pra mim, e nenhuma maioria de haters poderia mudar isso. Cada vídeo, texto e tweet que eu fazia para a Rosa, e cada RT, like ou reply que ela me dava ao passar dos anos só me enchia de alegria e autoconfiança, me dando a sensação de que eu estava a fazer a coisa certa. E essas qualidades foram essenciais para a etapa que viria a seguir.

Prazer, Brazilian Wrestling Federation

Dado todo o impacto que o vídeo do Tough Enough teve, eu acabei pensando: “E se no meio dessa brincadeira sem compromisso eu tiver encontrado a minha vocação?”. Aquilo era algo que eu realmente ficava feliz em fazer, e seria algo incrível se eu pudesse fazer isso pra valer. Foi aí que eu conheci a Brazilian Wrestling Federation (ou BWF, para os íntimos). De todas as companhias nacionais, ela foi a que eu me apeguei mais, e visto que ela é localizada no estado onde eu moro, era a melhor chance de eu transformar aquilo que eu amo em algo sério. Para a surpresa de ninguém, meu intuito era entrar no mundo do wrestling ainda com um papel de manager ao invés de querer ser lutador, e motivos não me faltavam para isso. O principal deles é que eu não confio o bastante em mim mesmo para atuar no ringue sem o medo de machucar a mim mesmo ou ao meu companheiro de equipe. Além disso, como um fã de lutinha que prioriza o entretenimento no wrestling tanto quanto a pancadaria em si, eu podia perceber que managers eram cada vez mais raros nas empresas brasileiras, logo se eu fizesse bem o meu papel poderia motivar outros a tentar também. Em questão de gimmick (nem sei por que eu me refiro tanto como gimmick, já que eu sempre tratei o eu real e o personagem como a MESMÍSSIMA pessoa), eu já me sentia construído: nada melhor do que ser o “Rosa Mendes Guy” que eu me tornei na internet; alguém que não tem medo de dizer ou fazer aquilo que o faz feliz, e poder inspirar os fãs assim como a Rosa me inspirou. Resumindo: um chato de galochas metido a tiete. A certa altura do campeonato, eu já tinha até minhas catchphrases, que eu dizia nos meus vídeos; eu iniciava com “Olá, meninos e meninas. Eu sou L.R. Barbosa, vulgo o autoproclamado… Rosa! Mendes! Guy!” (lembra do início do artigo?) e terminava com um “Deusa Roucka seja louvada”. Inspirações dentro do wrestling pra fazer o papel não me faltavam; Paul Heyman, Steve Austin, John Cena, Bray Wyatt… além da própria Rosa, é claro. E por ser algo focado no entretenimento, eu sentia que tinha a liberdade de pegar referências de fora do PW pra complementar minha personalidade, como Bruce Buffer, Kanye West e até Matheus Canella. O intuito do personagem? Simples, se tornar manager de algum lutador subestimado da BWF pra ajudá-lo a não ser tão injustiçado quanto a Rosa era na WWE. E eu comecei a investir, do jeito que dava, nesse meu sonho: fui fazendo mais vídeos, fiz uma camiseta de RMG, comecei até a frequentar algumas “quebradas” aqui na baixada santista, e pude até ir em algumas edições do BWF In House.

O manto sagrado que me acompanhou por boa parte da jornada

Com o tempo, todos os bons momentos que eu tive na caminhada e o reconhecimento por parte da galera da BWF me motivavam cada vez mais. Mas mesmo após 3 anos, eu continuava como um fã na internet; era como se nada tivesse mudado. E com o tempo, eu fui notando que… talvez não pudesse mudar. Talvez ser apenas um fã fosse mesmo a minha verdadeira função nesse mundo do wrestling.

Meu próprio pior inimigo; o início do fim

Foram cerca de 3 ou 4 anos vivendo um sonho; nutrindo a esperança de um dia poder fazer parte de vez daquilo que eu amo, sentir a experiência de ter um microfone em mãos e a reação de dezenas de fãs a me auxiliar. No entanto, com o passar do tempo, parecia que eu não conseguia sair do lugar pra concretizar esse objetivo, por mais que eu tentasse. Isso fez com que a ambição fosse indo embora aos poucos. A linha entre pessoa real e personagem já não era tão tênue assim. Foi então que eu comecei a aceitar a realidade de que aquele era um sonho distante, ou até mesmo impossível; e que o principal obstáculo estava em mim mesmo.

Ainda pequeno, eu fui diagnosticado com Síndrome de Asperger; um dos graus mais leves do espectro autista. Uma das principais característica dos portadores de tal condição é a dificuldade em interações sociais, e ainda que eu esteja em tratamento psicológico desde criança e com meus medicamentos, a síndrome é algo que me acompanhará, provavelmente, por toda a vida. E aí você se pergunta, meu caro leitor: O QUE TUDO ISSO TEM A VER COM A HISTÓRIA, AFINAL?? Bem, por conta dessa dificuldade social, eu acabo sendo incapaz de ter uma vida completamente independente. Sempre dependia de um(a) terceiro(a) para poder ir nos shows (principalmente os realizados fora de Mongaguá), e isso tornava a jornada cada vez mais desgastante. Até pra falar com o pessoal da equipe da BWF, ainda que em certo ponto eles já me conhecessem bem, eu ficava acuado, tímido, travado. Com toda essa tendência antissocial, a internet sempre me pareceu o único refúgio de interação. E ainda assim, nem sempre eu me sentia (ou sinto) seguro, principalmente quando acabo envolvido em alguma treta na web; coisa que eu odeio, já que eu nunca podia demonstrar que estava magoado pra valer, pois sempre teria um pra dizer que eu estava “me fazendo de vítima”. Mas apesar dos pesares, não sei o que eu faria sem as redes sociais pra falar de lutinha.

Eu nunca tive a intenção de me abrir a respeito da minha síndrome, pois eu não queria usá-la como uma desculpa ou uma carta branca pelos meus possíveis erros. Até que um dia, eu refleti: “Poxa, eu já me assumi como fã devoto de uma lutadora que é, para muitos, a pior que o wrestling já conheceu, e não tenho medo algum de reforçar o quanto a admiro. Mas tenho medo de aceitar algo que faz parte de mim desde que nasci, e que é basicamente o que me faz ser do jeito que eu sou? Um tanto irônico, não?” Com essa reflexão, junto ao fato de a Rosa ter se aposentado do wrestling (ela até tentou um retorno em 2018, mas uma lesão no joelho a fez parar de lutar de uma vez), cheguei a uma conclusão: eu não podia mais ser prisioneiro de uma utopia. Foi então que, no dia 6 de julho de 2019, aos 23 anos, decidi subir a serra para assistir um show na academia da BWF uma última vez. Terminado o show, me despedi de todos e deixei a minha camiseta de Rosa Mendes Guy lá. Que ela seja um símbolo de lealdade e que a equipe, ao olhá-la, sempre lembre que haverá fãs leais como eu para apoiá-la. Pelo menos a camiseta atingiu o objetivo de fazer parte da BWF, de alguma forma… Saí da academia com uma sensação agridoce no meu peito. O show daquela noite, assim como o meu sonho de ser manager, chegou ao fim. O Rosa Mendes Guy estava oficialmente aposentado.

E o que eu aprendi com tudo isso?

Hoje quando eu olho para trás e relembro tudo, vejo que estava apenas vivendo um sonho que só era possível na minha cabeça. Mas, por incrível que pareça, foi esse sonho que ditou o rumo da minha vida; que me ensinou a ser uma pessoa mais ambiciosa, determinada… e feliz.

Toda essa trajetória me aproximou mais da minha família; seja apenas para ir aos shows ou para apenas uma visita à capital no fim de semana, saber que o nosso laço se fortalece me enche de alegria. O sonho de ser manager me encorajou a começar a fazer uma oficina de teatro em 2017, que eu continuo até hoje na esperança de me profissionalizar em algo que eu adoro fazer: atuar e me esforçar para deixar o público com a melhor impressão possível. Ao pessoal da BWF, o meu muitíssimo obrigado por serem tão gente fina comigo, e mesmo que eu não pudesse ser um membro da equipe (talvez fosse até melhor assim), eu sentia que vocês me tratavam como tal (se eles não sabiam ao certo que eu queria ser parte da equipe pra valer ou a minha inibição me impediu de deixar isso mais claro a eles, temo que nunca saberei). Um agradecimento em especial ao Albert “O Mito do Cangaço”, pois foi ele o lutador (na época) subestimado que eu gostaria de ajudar como manager, e o jeito que ele comprava a “brincadeira” e a tornava mais real era algo que fazia meus olhos brilharem; eu já tinha até bolado nome pra equipe: LOS MITOS PELIGROSOS. Imaginava ele e eu sendo tipo Taker e Bearer, Andre e Heenan, Lesnar e Heyman, e por aí vai…

Los Mitos Peligrosos: Then, Now, Forever.

E quanto a Rosa… Ah, a Rosa… Sem ela, creio que nada do que eu relatei até aqui haveria acontecido. Eu dei uma chance a ela, e ela não desperdiçou. Foi com ela que eu aprendi o verdadeiro sentido de amor e lealdade (sim, aquela lealdade sobre a qual escrevi a respeito por aqui há um tempo atrás), e até hoje vejo nela um pouco de mim; a minha jornada de manager e a dela de wrestler meio que tiveram o mesmo fim: Nós podemos não ter feito o bastante para chegarmos ao nosso objetivo. Mas fizemos o máximo que pudemos, e o nosso esforço não deve passar despercebido. Eu era um fã dela no ringue, e fora dele ela fez com que eu me tornasse mais fã ainda, com sua história de vida e sua personalidade inspiradora. Quem diria que uma ex-lutadora de 40 anos (completos neste dia 25 de outubro) de outro país seria mais importante na minha vida do que muita gente que eu já conheci e cheguei perto…

Eu disse que eu tentaria não me prolongar, mas pelo visto eu falhei com minha palavra (risos). Se você leu até aqui (haja disposição), eu agradeço imensamente e espero que essa minha “autobiografia” lhe tenha agradado, inspirado, ou até mesmo arrancado algumas risadas; que tenha mostrado que pra muitos é só uma “lutinha fake”, pra mim foi algo que, de certa forma, me transformou em uma pessoa melhor. Mesmo com as decepções no caminho, eu não me arrependo de nada e admito que faria tudo de novo caso tivesse a oportunidade. Haverá momentos em que a vida irá bater forte, mas para encontrar forças pra seguir em frente, eu lembro do mantra que a Rosa me ensinou: FOLLOW YOUR DREAMS!!! Sugiro você, leitor, a fazer o mesmo.

Eu fui um Rosa Mendes Guy. Eu sou um Milena Roucka Guy. E disso eu tenho muito orgulho.

“Nunca é um adeus.” (TORETTO, Dominic)

Deusa Roucka seja ETERNAMENTE louvada.

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