Quanto mais dinheiro de sangue, menos Pro-Wrestling

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Caro leitor, há algum tempo venho mostrando meu total desapontamento com o produto da WWE.

Desde o dia 5 de outubro não assisto aos programas, mas ainda fico atualizado devido aos amigos e redes sociais. No entanto, algumas lacunas até o desprendimento total ao produto ainda precisam ser preenchidas. Espaços que são criados pela própria companhia, em um relacionamento abusivo com seus clientes, que insistem em voltar.

O que mais me incomoda no momento são os especiais na Arábia Saudita.

A data do segundo evento deste ano veio a calhar – será no Dia das Bruxas. 31 de outubro marcará o retorno da empresa à Riad, onde se apresentará para a nobreza local com toda a sua força disponível, exceto daqueles que se recusam a ir.

Esse evento em particular trouxe à tona a visão da companhia sobre determinados aspectos da Luta Livre. Entre eles, a importância da linearidade de um produto e quem tem mais valor no momento de tomadas de decisões: os patrocinadores ou a plateia.

Nesse texto, analisarei o contexto da WWE na Arábia Saudita, seus números e a relação entre Pro-Wrestling e lucratividade.

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Em 2018, a WWE formalizou um contrato histórico com a monarquia saudita.

Com cifras que ultrapassaram os 40 milhões de dólares, a companhia foi contratada para fazer uma série de grandes espetáculos no país. As exigências dos sauditas era que a empresa contasse com seus melhores lutadores – e trouxesse grandes lendas da Luta Livre, se possível.

Para o primeiro show, os monarcas estavam decididos à exigir que a WWE trouxesse Yokozuna para ser a grande estrela do evento. No entanto, o lutador havia morrido no ano 2000.

Dessa forma, o primeiro grande evento foi marcado: o Greatest Royal Rumble foi ao ar em maio daquele ano, numa sexta-feira.

O evento, que foi batizado dessa maneira por ter a maior Royal Rumble da história, com 50 lutadores, marcou a primeira grande demonstração de força do acordo. Mesmo que a WWE já tivesse feito um combate Royal Rumble naquele ano, a Arábia Saudita recebeu outro ainda maior.

Braun Strowman ganhou o maior Royal Rumble da história, um cinturão e um troféu. E foi isso.

Isso mostrava, ao menos, que aquilo se tratava apenas de um evento extra-oficial da WWE, mas com uma superprodução devido ao grande patrocínio.

O evento foi um sucesso financeiro para a WWE. Com um longo contrato com o reino, mais eventos deveriam ser feitos. Com mais dinheiro no bolso, maior o evento poderia ficar.

Foi isso que vimos no Crown Jewel, segundo evento da WWE em parceria com os sauditas.

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Riad, Arábia Saudita, 2 de novembro de 2018.

Essa poderia ser apenas mais uma sexta-feira em que a WWE cumpre seu contrato multi-milionário com o reino da Arábia Saudita e volta para casa com os bolsos cheios.

No entanto, o evento foi marcante por um episódio que aconteceu meses antes do evento. E, inclusive, não envolveria a WWE se o dinheiro não tivesse falado mais alto.

Um homem foi assassinado dentro do Consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, em 2 de outubro de 2018. Ele era Jamal Khashoggi, jornalista saudita exilado nos Estados Unidos, e colunista do Washington Post.

O crime cometido pelo reino saudita colocou em evidência tudo que os conectados em política internacional já sabem: a Arábia Saudita é um reino feito de sangue, que patrocina grupos terroristas no Oriente Médio e assassina opositores como Jamal à sangue frio.

Isso gerou uma onda de protestos nas redes sociais, meios de comunicação e até mesmo no Congresso estadunidense.

A WWE, que tinha um evento marcado para o dia 2 de novembro, sofreu retaliações. A ordem era pra que o show não acontecesse em território saudita.

A companhia retirou todas as referências ao local do show, tendo inclusive cogitado transferi-lo para Londres. Mas, no fim das contas, o bloody money falou mais alto. A WWE fez um evento ainda maior que o primeiro, promovendo o retorno de Shawn Michaels ao wrestling.

Alguns se recusaram a comparecer no show, como Daniel Bryan. Sami Zayn se recusa a atuar no país por ser descendente sírio. A relação se dá pelo patrocínio feito pelo governo saudita para o governo de Bashar Al-Assad, um dos responsáveis pelo conflito que deixou milhões de mortos e desabrigados na Síria.

Kevin Owens, seu melhor amigo, também se recusou a ir nos próximos eventos.

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2019 veio, e com ele duas novas datas para a Arábia Saudita: uma em maio, que foi o WWE Super ShowDown. E outra em outubro, om o Crown Jewel II.

Devido ao superfaturamento da companhia nesses eventos, o investimento é pesado. Tanto é que muitas lendas retornar para participar em troca de grandes pagamentos. No entanto, mulheres não são permitidas no evento. Apenas Renée Young, que participou como comentarista.

Em 2018, as mulheres ganharam um evento especial em troca. O Evolution aconteceu meses depois do Greatest Royal Rumble, sendo exclusivo para mulheres. O investimento e o tempo de show foram menores, mas o que importa, não é mesmo?

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A WWE na Arábia Saudita foi formulada para ser uma realidade paralela a do cotidiano da empresa. Tanto é que Mansoor, um lutador sem expressão no NXT, venceu uma grandiosa Battle Royal no último evento, em maio. O motivo? Ele é saudita, e devia ser mostrado como um herói local.

Mansoor ficou conhecido por sua vitória no WWE Super ShowDown. No entanto, ele é tratado apenas como um lutador sem expressão no Ocidente.

No entanto, o alto investimento no evento faz com que, invariavelmente, a realidade dos eventos árabes se cruze com a da WWE.

E isso acaba afetando o lado da Luta Livre da companhia, a partir do momento em que a empresa o trata como evento extra-oficial mas usa as maiores estrelas do seu plantel para torná-lo importante.

No Crown Jewel II, as duas lutas marcadas para os eventos principais contém lutadores que não são recorrentes e nem ao menos fazem parte da companhia: Tyson Fury e Cain Velasquez. O primeiro, campeão mundial de Boxe, enfrentará Braun Strowman. O segundo, lenda do UFC e bicho-papão de Brock Lesnar, estrará contra o imparável lutador em uma luta pelo título mundial da WWE.

Velasquez, mesmo com menos de 5 lutas na Luta Livre, será o desafiante pelo principal título da companhia.

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Ao envolver seus lutadores e títulos principais nos eventos, a WWE assume a importância da Arábia Saudita no seu calendário. Mais do que isso, assume que o dinheiro, mesmo que de uma ditadura, é o que vale no fim das contas. Afinal, que empresa não precisa de rentabilidade?

No entanto, ao assumir os eventos sauditas como oficiais, fica evidente que eles serão privilegiados, em detrimento dos outros especiais do calendário. E, como nesse evento são lutadores não recorrentes que são as estrelas, o elenco fixo é desprestigiado.

Principalmente as mulheres, que ficam totalmente fora dos shows. Como explicar que Becky Lynch, a maior estrela do momento, não poderá atuar porque um país proíbe que mulheres pratiquem esportes em seu território?

Isso afeta diretamente na qualidade do dia-a-dia da empresa, seja em shows semanais, Pay-Per-Views, etc. Os esforços para privilegiar um evento que, em teoria é extra-oficial. Mas, a partir do momento em que histórias são construídas para que o evento seja tão grande quanto o maior do ocidente, a WrestleMania, é conversa para boi dormir dizer que ele não afeta.

Afeta, e muito. Tudo para agradar os árabes, que utilizaram todo o seu bloody money para se divertirem com Wrestling. Como resultado, temos lacunas deixadas no meio da temporada da empresa, já que muitas histórias deixam de ser desenvolvidas para que as histórias da Arábia Saudita tenham espaço.

Dessa forma, temos aqui um fato: quanto mais dinheiro de sangue, menos Pro-Wrestling.

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Todas as imagens tem os direitos reservados à © WWE.

Lucas Gomes

Não sou um profissional.

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