Uma análise inicial sobre a participação dos negros nos eventos principais da Luta Livre Mundial entre 2009-2019

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Hoje, dia 20 de novembro, comemoramos o Dia da Consciência Negra.

A data homenageia o povo que foi retirado de seu continente e trazido para o País como escravos. Depois da abolição, em 1888, a diferença entre brancos e negros nos mais variados aspectos da sociedade continua a ocorrer.

E os casos de racismo não cessaram com a abolição.

A luta de emancipação do povo negro, no entanto, não é exclusivamente brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, a população de descendência africana é menor em relação a de cá, mas sofre com semelhantes mazelas.

E o Pro-Wrestling é muito popular por lá.

Dessa forma, decidi estudar alguns números sobre a participação do negro no esporte. Nesse texto, analiso o período entre 2009 e 2019 das três principais companhias do período: WWE, ROH e Impact.

Nesse primeiro estudo, excluo NXT e All Elite Wrestling da análise. O primeiro por estar em processo de consolidação, e o segundo pela falta de dados concretos.

O que foi analisado?

Para esse estudo inicial, coletei dados referentes às conquistas de títulos mundiais das companhias durante o período analisado.

Além disso, foram observados todos os eventos em formato Pay-Per-View de cada uma das companhias.

O objetivo é quantificar a participação de lutadores negros nos principais eventos das grandes empresas do Wrestling profissional e compará-los com os números totais de conquistas.

Nesse primeiro momento, foram excluídos os números em relação às mulheres. Alguns parâmetros ainda são escassos para medir o impacto, como a participação nos Main Events, por exemplo.

Também foram excluídos especiais do NXT, os Takeovers, e os reinados do Universal Championship, pois ainda não houveram campeões negros para essa modalidade.

Tudo explicado, podemos começar.

WWE possui o maior número de campeões negros, mas o pior percentual de reinados e participação em eventos principais

A WWE é a maior empresa de todo o ramo da Luta Livre.

Desde 1952 na batalha, a companhia já nos propiciou momentos inesquecíveis e grandes reinados para seus lutadores. Alguns, como Hulk Hogan, ficaram mais de 3 anos com a cinta.

Os anos 2000, no entanto, pedem maior dinamismo na troca de cinturões. Isso gera um maior número de campeões. No entanto, a afirmação não confirma que isso aumenta o número de negros campeões mundiais.

Se no período entre 2000 e 2009, apenas dois chegaram ao prêmio máximo da Luta Livre, entre 2009 e 2019, as coisas não foram tão diferentes. No período analisado, em ordem de reinados, Mark Henry, The Rock e Kofi Kingston foram os únicos campeões negros.

The Rock é um dos que também foram nos anos 2000.

Por incrível que pareça, seus reinados não foram tão curtos como se imagina. Apenas o de The Rock, com 70 dias, não ultrapassou a marca dos 3 meses. Mark Henry teve 91 com o extinto World Heavyweight Championship, enquanto Kofi teve 180 com o WWE Championship.

Mas, quando se fala no número de lutadores em relação ao total de vencedores, os números demonstram uma falta de representatividade.

World Heavweight Championship

No extinto World Heavyweight Championship, analisamos os 1744 dias entre a primeira conquista do período (Edge, 2009) e a última (Randy Orton, 2013), quando foi unificado com o cinturão mundial da WWE.

Dos 1744 dias, em apenas 91 ele foi carregado por uma pessoa negra. Isso representa um total de 5% do tempo analisado para esse trabalho. Em 2011, Mark Henry venceu Randy Orton e, 3 meses depois, perdeu a cinta para Big Show.

Entre esses 3 anos e 8 meses aproximadamente, 17 novos campeões foram coroados. Dentre esses, apenas Henry era negro, representando apenas 6% do total.

Total de reinados analisados: 17
Total de reinados de negros: 1 (6%)
Total de dias analisados: 1744
Total de dias de reinados de negros: 91 (5%)

Foto: WWE

WWE Championship

O título mais glamouroso da Luta Livre mundial tem quase 60 anos de existência, mas seu primeiro campeão negro foi coroado apenas no fim da década de 90, quando The Rock levantou a cinta.

Desde seu último reinado, em 2002, houve uma escassez de campeões negros.

Apenas em 2013, o WWE Championship se encontrou novamente com um afro-americano. O nome dele? The Rock.

No Royal Rumble 2013, a lenda do esporte derrota CM Punk no evento principal da noite e se torna campeão 11 anos depois da última conquista.

Dessa vez, todavia, a demora para um novo campeão não foi tão grande. Kofi Kingston, 5 anos depois, derrota Daniel Bryan e se sagra vencedor em plena WrestleMania.

Os números em relação ao tempo e a quantidade de negros com o cinturão, porém, não melhora muito.

Dos 3885 desde a vitória do primeiro lutador (Edge, 2009) até o último da lista (Brock Lesnar, outubro), em apenas 6% do tempo total (250 dias), um negro foi campeão mundial.

E, dos 20 campeões coroados durante os 10 anos e meio analisados, apenas 2 são negros, o que representa 10%.

Total de reinados analisados: 20
Total de reinados de negros: 2 (10%)
Total de dias analisados: 3885
Total de dias de reinados de negros: 250 (6%)

The Rock, o primeiro negro a ser campeão na WWE, com o título.
Foto: WWE

Negros não participam de uma luta individual no evento principal de especiais da WWE há três anos

Quando essa análise foi iniciada, uma das grandes questões estava na participação de lutadores negros no ápice dos eventos especiais das companhias, os chamados Main Events.

Me recordava de uma boa participação no início da década, com lutadores tendo chances individuais ou em grupo e fechando os Pay-Per-Views.

De 2009 até hoje, tivemos 160 encerramentos de eventos especiais na WWE. No entanto, apenas em 11 deles tivemos a presença de um ou mais negros, o que representa 7% do total.

Dessas, 109 foram lutas individuais, ou seja, luta em que os lutadores se enfrentam entre si sem duplas ou grupos. Em apenas quatro (4% do total) delas tivemos um lutador negro.

Se contarmos apenas os Main Events com disputa de cinturão, o número de encerramentos diminui. Foram 94 ao longo dos 10 últimos anos. A participação do negro, no entanto, segue baixa. Foram apenas 6 (6% do total), sendo metade delas apenas de um mesmo lutador. The Rock, em 2013, fez três lutas seguidas por cinturão e fechou esses três eventos.

Por falar em The Rock, ele foi o último homem negro a ter uma luta individual e por cinturão num evento principal da WWE. Foi contra John Cena, na WrestleMania 29, em 2013.

No entanto, Sasha Banks foi a última pessoa negra a figurar num Main Event. Foi em outubro de 2016, há 3 anos, no Hell in a Cell.

Ela, R-Truth e The Rock foram os únicos negros a lutarem em combates individuais que fecharam o evento. David Otunga e Michael Tarver foram os outros lutadores que estiveram presentes num Main Event.

Total de Main Events analisados: 160
Total de Main Events com a presença de negros: 11 (7%)
Total de lutas individuais: 109
Total de lutas individuais com a presença de lutadores negros: 4 (4%)
Total de lutas por cinturão: 94
Total de lutas por cinturão com a presença de lutadores negros: 6 (6%)

Impact Wrestling possui o maior número de reinados do período analisado, mas a menor proporção entre os analisados

O Impact Wrestling é uma companhia que nasceu nos anos 2000.

Assim como outras empresas da nova geração, ela tentou atender um público independente, que ainda sentia saudades de promoções como a falida ECW.

Seus primeiros anos foram de ascensão e, com isso, grandes lutadores chegaram à empresa e tomaram o protagonismo. No entanto, a Impact Wrestling concedeu seu principal título, que ainda era o NWA World Heavyweight Championship, para um homem negro em tempo recorde.

Ron Killings, conhecido como R-Truth na WWE, foi campeão ainda nos primórdios da companha.

No entanto, a empresa passou por uma profunda transformação nos últimos dez anos. De quase rival da WWE à quase falência e eventual mudança de nome, o Impact demorou para encontrar uma identidade própria novamente. E deu alguns escorregões no meio do caminho.

Por quatro vez um homem negro foi campeão da empresa. No entanto, nas quatro oportunidades ele foi a mesma pessoa: Lashley, que entre os anos de 2015 e 2017 foi um dos personagem centrais da companhia.

Seus reinados, assim como os da WWE, tiveram uma quantidade razoável de dias. Apenas uma vez seu reinado não ultrapassou os três meses de duração.

Impact Wrestling World Heavweight Championship

Em 2019, podemos dizer que o Impact Wrestling World Heavweight Championship é um dos mais democráticos do ramo.

A disputa não fica apenas entre lutadores com determinada cor, gênero ou tipo físico. Ele não distingue, felizmente, as forças da Luta Livre.

Tanto é que, em janeiro, Tessa Blanchard disputará a cinta contra o atual campeão, Sami Callihan.

Mesmo assim, a presença do negro ainda é pequena em relação ao número de pessoas que seguraram o título.

Dos 25 campeões analisados, apenas Lashley é negro, o que corresponde apenas a 4% do total analisado.

No entanto, dos 3661 dias de análise desde a primeira conquista (Mick Foley, 2009) até a última (Sami Callihan, novembro), o número aumenta um pouco. Lashley teve a cinta durante 403 dias, representando 11% do tempo total.

Diferentemente da WWE, os reinados somados ultrapassaram o tempo de 1 ano, ao menos.

Total de reinados analisados: 25
Total de reinados de negros: 1 (4%)
Total de dias analisados: 3661
Total de dias de reinados de negros: 403 (11%)

Foto: Impact Wrestling

Impact possui o maior número de negros encerrando eventos das empresas analisadas

Até a metade do período analisado, o Impact montava o seu calendário com 12 Pay-Per-Views anuais. No entanto, com a crise instaurada na empresa, o número foi diminuindo consideravelmente.

Dessa forma, nos 10 anos do estudo, a empresa fez um total de 71 encerramentos. Desses, em 9 tivemos presença de lutadores negros, gerando um total de 13% dos eventos.

Em relação às lutas individuais, das 49 que aconteceram durante o período, os negros fizeram parte de 6, que significa 12% do total analisado.

Em relação aos combates por cinturão, não houve como ter precisão na contagem. Dessa forma, decidi não incluir nas estatísticas do Impact.

Nesse período, seis lutadores negros estiveram presentes no evento principal: Booker T, Brother D-Von, D’Angelo Dinero, Lashley, Moose e MVP.

Dinero, Lashley e Moose foram os que lutadores que participaram de combates individuais.

Total de Main Events analisados: 71
Total de Main Events com a presença de negros: 9 (13%)
Total de lutas individuais: 49
Total de lutas individuais com a presença de lutadores negros: 6 (12%)

Ring of Honor tem um homem negro recordista total de dias de reinado do cinturão mundial

A Ring of Honor vive uma década de altos muito altos e baixos muito baixos.

Com a mesma idade da Impact Wrestling, a companhia foi a queridinha dos amantes do Wrestling profissional independente, exportando grandes lutadores para as principais companhias.

Se hoje falamos sobre CM Punk, Daniel Bryan, Kevin Owens, Roderick Strong, Sami Zayn, Samoa Joe, Seth Rollins e muitos outros, é graças a ROH.

E a empresa se caracteriza por longos reinados. O maior deles tem mais de 500 dias, e foi o último antes do período analisado. Nigel McGuinness, hoje comentarista da WWE, foi o grande campeão.

Mas a empresa possui números interessantes em relação a participação de negros no topo.

ROH World Heavweight Championship

Proporcionalmente, a Ring of Honor é a companhia que possui o menor número de reinados por dia.

Nos 3804 dias analisados entre o primeiro reinado (Jerry Lynn, 2009) e o último (Rush, setembro), apenas 17 lutadores seguraram a cinta.

No entanto, a história se repete em relação à participação de lutadores negros. Apenas Jay Lethal foi campeão durante o período, representando apenas 6% do total.

Felizmente, os dias de reinado de Lethal são, somados, os maiores da história da Ring of Honor. Os seus 707 dias com o cinturão representam 19% do total, o maior número entre as três empresas.

Total de reinados analisados: 17
Total de reinados de negros: 1 (6%)
Total de dias analisados: 3804
Total de dias de reinados de negros: 707 (25%)

Foto: Ring of Honor

ROH possui a maior porcentagem de participação de negros no encerramentos de PPV, mas tem a menor variedade

Tratando-se da empresa com menor investimento e alcance entre as três analisadas, a ROH foi a que menos fez eventos em Pay-per-view.

No total, foram 58 analisados. Desses, em 15 ocasiões tivemos a presença de um ou mais negros, gerando um total de 26%

A proporção é a mesma quando se analisa as lutas por cinturão. Foram 54 no período, onde em 14 delas um negro disputou um título (26%).

Por último, dos 49 combates individuais desses 10 anos, em 12 tivemos a presença de negros, representando 24% do total.

Total de Main Events analisados: 58
Total de Main Events com a presença de negros: 15 (26%)
Total de lutas individuais: 49
Total de lutas individuais com a presença de lutadores negros: 12 (24%)
Total de lutas por cinturão: 54
Total de lutas por cinturão com a presença de lutadores negros: 14 (26%)

Conclusão

A partir desse estudo inicial, podemos ter uma primeira impressão de como se dá a participação do negro nas principais empresas de Luta Livre.

Existe um número razoável de lutadores negros nos plantéis das empresas. No entanto, isso não gera uma relação direta com o sucesso ou o alcance de posições maiores dentro da companhia.

O número de reinados, porém, é razoável. Apenas um dos analisados teve menos de 2 meses. Alguns foram até mais longos que de grandes nomes brancos do esporte.

Mas, quando se trata do número de campeões negros em relação ao total de lutadores que conquistaram o título, esse número cai consideravelmente. Em todos os casos, a proporção de conquistas era de, pelo menos, 1 a cada 10 lutadores.

Percebe-se também que as companhias de menor investimento dão mais tempo de reinado para homens negros, mesmo com menos vencedores. Jay Lethal, em seu reinado de 424 dias, foi campeão por mais tempo que todos os reinados de negros campeões mundiais na WWE – durante o período analisado – somados.

A participação no encerramento dos shows também não tem participação razoável de negros. O número não chega à 10 em nenhuma das análises. São apenas 14 lutadores em quase 300 eventos analisados.

Ainda não existem números que possam comprovar esta afirmação, mas é de se especular que o número pouco aumentou em relação às décadas anteriores ao período analisado.

Dessa forma, é necessário entender o porque a participação de lutadores negros no Wrestling profissional é baixa.

Em esportes com caraterística semelhante à Luta Livre, onde atleticismo e força é exigido, os negros têm seu destaque. No entanto, diferentemente dos outros, os vencedores do Wrestling são decididos previamente. E quem decide são, geralmente, homens brancos e mais velhos.

Que nesse Dia da Consciência Negra possamos celebrar cada lutador que colocou seus esforços no ringue e gerou alegria para a comunidade, e tentar compreender o porque existe uma luta para tornar o esporte mais justo e inclusivo.

Que saibamos que, numa sociedade onde o racismo impera, devemos ser, acima de tudo, compreender a luta de um povo que teve sua liberdade roubada há séculos e batalha para reconquistá-la.

Feliz Dia da Consciência Negra.

Lucas Gomes

Não sou um profissional.

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