Na rua, na passarela ou nos ringues, a moda está em todos os lugares!

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Primeiramente, eu saúdo os irmãos com a santa e gloriosa paz do senhor, amém?! Segundamente, e aí pessoal! Cês tão bem, cês tão bons?! Eu espero que vocês estejam muito bons! Sim meus amados, a Cruella Devil desta comunidade está de casa nova, mas ainda sim com o mesmo conteúdo sem vergonha que vocês estão acostumados a ler. Esse é um recomeço para as coisas legais que farei a partir deste momento. Então, dados os devidos cumprimentos, bora reinaugurar esse ateliê meu povo!

De uns tempos para cá, nunca se falou tanto sobre a questão dos figurinos no cenário da luta livre. Lutadores têm aparecido com looks cada vez mais bem elaborados, muitos acertam a mão, outros não economizam em cometer crimes contra a Lei Maria da Moda. Hoje, nenhuma peça passa despercebida aos olhos dos fãs. Mas ao mesmo tempo em que esses looks começaram a ficar mais visados, nós não tínhamos muitos conteúdos que abordassem de forma mais detalhada o que há por trás dos processos de criação dos mesmos, digo isso em termos de conteúdos escritos em português, pois na gringa mesmo, vira e mexe pinta algum artigo sobre ring attires e suas inúmeras fontes de inspiração. E é aí que a pessoa que vos escreve entra no grupo.

Em julho desse ano, depois de uma bela virada de chave dada por ninguém menos que o Falcão da luta livre, Seth Rollins, finalmente pude colocar em prática uma ideia que estava engavetada por motivos de autossabotagem. Foi através da estética “camp” que nasceu o Modinha na lutinha e ali percebi que a galera tem muito mais curiosidade e vontade de conhecer mais sobre moda do que eu imaginava e aos poucos fui me dando conta da importância de produzir mais conteúdos misturando luta livre com a moda. Mas antes de tudo, o que é a moda? O que a gente precisa saber sobre um universo que não se resume somente a roupas bonitas e muita futilidade?!

Para começar essa estreia com o pé esquerdo (sim, esquerdo, jamais seremos direita nesse site), vamos falar sobre alguns tópicos que estarão bastante presentes em futuros conteúdos, isso vai ajudar vocês a entender um pouco como tudo funciona, afinal, eu gosto de deixar as pessoas cientes do terreno em que elas vão pisar comigo. E é claro, tudo isso com o toque mágico das lutas teatralizadas. Só bora!

Moda, indumentária, figurino e outros termos a mais: sim, existem diferenças!

A história da moda anda juntinho e de mãos bem dadas com a história e evolução da humanidade, para cada período dessa história, existiam determinadas peças que foram marcantes e que ajudam a gente a entender como eram os costumes, a cultura e o modo de vida de uma determinada civilização. A roupa, seja ela um elemento de moda, estilo, indumentária ou figurino cênico traz uma carga significativa de elementos culturais, sociais e outras formas de expressões que vão sendo construídas através de uma linguagem de vestuário. É normal a gente ter aquele senso comum de resumir a moda a apenas roupas e nada mais e que todas as outras vertentes ligadas a ela são uma coisa só, mas mesmo sendo muito semelhantes, alguns termos possuem pequenas diferenças. Para ilustrar essas diferenças, vamos usar alguns nomes da luta livre que a gente tanto ama como exemplo para cada termo.

Moda

Moda é o comportamento de uma dada época histórica. Ela nada mais é do que um costume que vai se modificando com o passar do tempo. A palavra vem do termo latin modus, através do francês mode. Costuma se referir especificamente aos diversos estilos de vestuário que prevalecem numa dada sociedade numa dada época histórica. Os principais motivos para a existência da moda lá em seu início são: pudor, proteção e status.

Depois que Adão e Eva comeram o fruto proibido, a primeira coisa que se deram conta era de que estavam nus e com vergonha, eles se cobriram com folhas de figueira. Quando os dois foram expulsos do Édem, Deus fez para eles túnicas, utilizando pele de animais, assim, surgiam as primeiras peças de roupa da história da humanidade.

Adão e Eva, uma pintura de Ticiano Vecellio. Imagem: Blog Vírus da Arte.

No período Pré-histórico, os indivíduos utilizavam de peles de animais como forma de se proteger das ações do frio e do calor. Mais na frente, essas mesmas peles de animais eram usadas por líderes de grupos como demonstração de poder, um homem usava essa pele por cima do corpo para mostrar quão bom caçador ele era, para atrair as mulheres e mostrar superioridade para outros homens. Não só a pele, mas os dentes de animais eram usados como acessórios pelos mesmos.

Homem primitivo coberto por pele de animal. Imagem: Blog Vestuário da Antiguidade.

Indumentária

Se eu perguntar pra vocês que estão lendo aí agora, em questão de moda, qual é a primeira lembrança que se tem quando se fala de Egito Antigo por exemplo? Se vocês disseram perucas, vestidos com tecidos leves e claros, aquelas golas lotadas de joias, vocês estão certos. O padrão de vestimenta do Egito Antigo permaneceu sem mudanças significativas por um período de quase 3 mil anos. Usei esse exemplo para definir um pequeno conceito do que é indumentária.

Algumas vestimentas do Egito Antigo. Imagem: Blog Biblioteca da Costura.

Basicamente se trata de peças que acabam se tornando muito características de determinados povos, elas dificilmente mudam sua estrutura, sendo as mesmas apesar do passar dos tempos, elas fazem parte da cultura e da história daquele povo. Um outro bom exemplo são os uniformes militares. A indumentária nos tempos antigos também era usada para distinguir classes sociais, haviam determinadas peças que somente os nobres e pessoas ligadas aos reis da época usavam, já as pessoas de classe mais baixa tinham um padrão de vestimenta inferior, geralmente peças feitas com materiais mais baratos e com menos qualidade. Isso só foi mudar lá na frente, final do século XVII, no reinado de Luis XIV, quando a burguesia fica cansada de vestir trapos e resolve que merece coisa muito melhor, passando a copiar o padrão de vestimenta dos nobres na cara dura.

A moda brasileira sabe muito bem como carregar cultura e história em suas peças, tudo é muito rico de cores e elementos importantes que ressaltam a beleza e as particularidades de cada região do país. Um bom exemplo de indumentária é a nossa representante no 205Live, Valentina Feroz, que traz com orgulho toda riqueza da cultura amazônica em suas ring attires.

Como uma guerreira indígena, Valentina faz questão de trazer consigo as raízes da região amazônica em suas vestes de luta. Imagem: Instagram @valentinaferozwwe.

Estilo

Eu lembro muito bem de todos os momentos em que passei raiva na minha infância pelo simples fato de a minha mãe escolher as armações dos meus óculos, geralmente ela escolhia as mais baratas, que naquela época não eram bonitas e modernas como as de hoje. O resultado dessas escolhas foi bullying, chacota e apelidos como fundo de garrafa por exemplo. Isso é só um pequeno testemunho da falta de opções que eu tinha na época, assim como toda criança pequena que até uma certa idade, não tem autonomia para escolher o que vai vestir e usar, tudo se baseia pelos gostos dos pais.

Conforme o crescimento, a gente vai refinando os nossos gostos e se vestindo de uma maneira que nos faça sentir bem e que ao mesmo tempo expresse o nosso estado de espírito no momento. Estilo é algo pessoal é a marca resgistrada de cada pessoa, é a maneira que a gente se apresenta pro mundo, é algo que vamos construindo e refinando livremente conforme o tempo.

Um dos estilos que talvez seja o mais presente no mundo do telecatch é o estilo voltado pro Rock/Punk (em um outro texto eu vou contar essa história com mais detalhes). A gente vê couro, calças rasgadas, predominância de preto e muitas tachinhas e spikes nas composições visuais dos lutadores. Temos uma infinidade de exemplos, um deles é o visual da recém contratada da AEW Ruby Soho, que veste muito bem seus jeans rasgados e jaquetas super bem customizadas.

Imagem: Instagram @realrubysoho.

Figurino

Existem roupas e roupas. Roupas que facilmente podem ser usadas em diversos lugares e roupas que podem fazer a gente correr risco de ser linchado em praça pública por tamanha inadequação. O que as pessoas do seu bairro diriam se você saísse na rua, em pleno horário de almoço com o terno laminado de assadeira do Seth Rollins?!

É, não teria como eu usar outro exemplo porque esse é o mais escancarado do momento e não, não saia na rua usando roupas prateadas. O figurino nada mais é do que a roupa que um ator veste para dar vida a um personagem. Quando a gente fala de figurino, o senso comum logo nos conduz para o teatro, para as novelas e séries, o que não é muito diferente da luta livre se for parar pra analisar. Como disse lá no início, nos últimos tempos a gente começou a dar mais atenção para o que os nossos queridos lutadores estão vestindo e isso se deve a um trabalho bem legal de um ou mais figurinistas, nos quais eu jamais critiquei. O processo de concepção de um figurino é um tanto trabalhoso, envolve muito estudo, análises detalhadas e um ótimo senso de criatividade.

Eu tive uma pequena experiência trabalhando com figurino recentemente pra uma produção de websérie (não deu certo no final das contas, mas aprendi bastante, é o que importa né minha gente kkk) e acreditem, eu precisei saber da vida de cada personagem que iria vestir, características da personalidade, qualidades, defeitos, o que eles gostavam de comer, beber, música, traços psicológicos, TUDO. Depois disso, criei os primeiros painéis de inspiração com os estilos que pensei para cada um e separar os figurinos por cena (pensando na ocasião, período e lugar), isso sem ter as peças físicas comigo. Além de eu ter que voltar no tempo e estudar a época em que a produção iria se passar, estou resumindo porque se vocês soubessem o trabalho que deu iam ficar com pena de mim, mas as principais tarefas foram essas. Tudo isso com o único objetivo de fazer o personagem transmitir a mensagem certa e ajudar quem está assistindo a compreender um pouco mais da história que tá sendo contada.

No primeiro texto que fiz unindo moda e luta livre, expliquei a intenção por trás dos figurinos montados para Seth Rollins e como eles são parte fundamental na construção dessa personalidade dele. O povo xingar no twitter já era uma reação esperada, o objetivo era esse. A arrogância e o senso de superioridade aliados a roupas cada vez mais extravagantes são a combinação perfeita pra que o público o ache um ser insuportável, mas que ainda sim a gente curti assistir e até espera a próxima semana para ver o que ele vai vestir, nem que seja pra continuar falando mal. Outro exemplo bem expressivo são os Young Bucks. Há quem ame e quem odeie os lookinhos dos gatos em todas as suas aparições. Ultimamente, os bonitos estão em uma vibe bem De férias com o ex, já que os conjuntos estampados que eles usam podem ser facilmente encontrados nos armários de Lipe Ribeiro e Flávio Nakagima, ou até mesmo em uma das inúmeras lojas Renner.

Imagem: Google.

Tendência

Se vocês vêem novas tendências surgindo a todo momento em uma velocidade absurda, agradeçam ao rei Luís XIV e principamente aos burgueses safados do final do século XVII. Antes disso, o ciclo de tendência demorava cerca de 20 ou 30 anos para manifestar alguma mudança significativa. Foi a partir de Luís XIV que Paris começou a se impor na Europa com novos padrões sociais, de comportamento e se tornou o centro da moda no mundo. Por conta da sua baixa estatura, se tornou um adepto dos sapatos de saltos altos, sua marca registrada, que depois foi copiado pela corte. Também foi usuário de grandes perucas, principalmente depois que começou a ficar careca, sempre ostentava uma vasta cabeleira artificial, o que virou moda durante anos. Perfumes, saltos altos, gastronomia, salão de cabeleireiros e criadores de moda são algumas das heranças deixadas por ele.

Luís XIV, o homem que pode ser chamado de “pai da moda”. Imagem: InfoEscola.

Durante o seu reinado começaram a surgir mudanças mais rápidas na moda. A classe média começou a ascender e assim começaram a copiar os padrões de vestimenta dos mais nobres, que por sua vez, odiavam tal fato e começaram a criar códigos de vestimenta para evitar que os burgueses pudessem copiar, fazendo com que surgisse o ciclo de tendências que conhecemos hoje. Foi também nesse período que a alta-costura nasceu, através do inglês Charles Worth que passou a criar e assinar peças exclusivas e feitas sob medida para seus clientes, o que era sinônimo de status, já que antes, as pessoas levavam os modelos para as costureiras afim de reproduzir as roupas. Depois veio o chamado “prêt-à-porter” (pronto para vestir), onde as roupas passaram a ser feitas em grandes quantidades, dando origem as grandes lojas de departamentos e ao barateamento de peças, atendendo de forma mais rápida as necessidades da sociedade e suas mudanças.

Uma das principais tendências dos últimos dois anos com certeza são as cartelas de cores vibrantes e neon. Cores acesas e mais saturadas tem aparecido com frequência, sendo apresentado em acessórios ou no look completo. Tons como o rosa, amarelo e laranja ainda são apostas pra temporada de verão desse ano. E não tem como não lembrar dessa tendência sem mencionar a pessoa que melhor sabe usá-la no cenário da luta livre, Naomi.

As cores mais vibrantes são perfeitas para ressaltar os tons de pele negra e elas ainda são uma tendência quente no cenário da moda. Imagem: Twitter @kimberlasskick.

A moda é um mundo enorme e cheio de pequenos detalhes super interessantes que ainda não são muito explorados. Já estava sendo divertido, mesmo que muito trabalhoso dividir essas ideias malucas e poder trazer algo diferente do convencional pra vocês. É incrível poder unir o maior amor da minha vida que é a moda com algo que tem um significado importante pra mim como a luta livre, já que foi aqui que eu finalmente tive a sensação de fazer parte de alguma coisa, o que não acontecia há muito tempo. Espero estar fazendo vocês felizes com as minhas criações porque esse é meu principal objetivo. Obrigada, obrigada e bem vindos ao Ateliê WrestleBR!

Myrcella

A palhaça que acha que sabe falar de moda e luta livre.

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